PAUL  ADAM  E  O  BRASIL

 

Regina Salgado Campos - USP

 

 

Este trabalho se insere num conjunto que pretende estudar a presença de visitantes e conferencistas franceses no Brasil, durante os primeiros anos do século XX. Tratamos anteriormente da viagem do padre Burnichon em 1907-08, de Anatole France em 1909, de Georges Clemenceau e do padre Gaffre em 1910, e de Jean Jaurès em 1911. Além destes, também examinamos a obra do economista Paul Walle. Mas a bibliografia desta época sobre o Brasil é vasta. Analisemos agora a visita de Paul Adam em 1912 registrada no livro Les visages du Brésil.[1]

Paul Adam (1862-1920) é autor de sucesso na época pois escreve em especial 4 romances publicados de 1899 a 1903, reunidos com o título geral de “Le Temps et la Vie – História de um ideal através dos séculos”, classificados por Camille Mauclair[2] como “Romances da Força”. Tratam da saga da família Héricourt, obras de cunho autobiográfico, situadas no Primeiro Império até 1830. O primeiro da série, já pelo título La force mostra de que pretende tratar. Essa força, essa energia não pertence ao indivíduo que pode apresentar características de fraqueza, medo, oportunismo. Não se constitui portanto num “herói”, mas alguém que, por pertencer a determinada raça - no caso a latina - é capaz de se superar e alcançar os objetivos previstos. Estaria portanto em oposição ao pessimismo e as idéias decadentistas. A situação do autor no âmbito dos movimentos de sua época é bastante curiosa: diz-se anarquista, mas põe fé na Igreja Católica. Conhece o ocultismo, a franco-maçonaria, tem um livro de cunho utópico. É nacionalista, mas não é barresiano. Parece-nos que o aspecto que sempre tem o seu repúdio é o socialismo.

O francês chegou ao Rio e, recebido oficialmente, fez conferências, como os demais: a primeira foi sobre “O mito de Ícaro”, reproduzida no livro no capítulo VIII.[3] Trata de Santos Dumont, inserindo-o na seqüência dos grandes inventores originários do gênio latino. Na segunda, falou sobre “O mito de Vênus”, exaltando a superioridade da mulher latina e concluindo daí sobre as virtudes da mulher brasileira. Paul Adam visitou ainda São Paulo, Santa Catarina, Ouro Preto e o Amazonas. Seu roteiro foi portanto mais abrangente do que o dos demais visitantes. Em 20 de maio foi recebido pela Academia Brasileira de Letras e saudado por José Veríssimo que não deixou de fazer restrições ao seu entusiasmo pela latinidade. Parece-nos importante assinalar que tanto Clemenceau como o padre Gaffre, ao visitarem o Brasil, já haviam conhecido os Estados Unidos. Se o primeiro aí viveu na juventude, o segundo lá esteve de 1889 a 1894. Quanto a Paul Adam, sua visita data de 1904. Publicou um livro de viagem Vues d’Amérique ou la Nouvelle Jouvence[4]e duas obras de ficção: Le Rail du Sauveur em 1908 e Le Trust em 1910.

 

 

Dedicatória de Les visages  du Brésil

 

 

O livro, publicado no inicio de 1914, é dedicado a Graça Aranha. Comentando a visita de Paul Adam e a obra sobre a viagem, diz Brito Broca:

 

Era uma obra naturalmente encomendada para a propaganda do Brasil no estrangeiro; o autor não se limita a impressões de viagem, fala também de nossa história, de nossas condições político-sociais, indicando os que lhe forneceram os dados para isso[5].

 

Depois de explicar que a viagem de Paul Adam é resultado de um convite do ministro de Relações Exteriores, Lauro Muller, Pierre Rivas afirma:

 

Seu livro, Les visages du Brésil, que aparece em 1914, é dedicado a Graça Aranha - outro “nacionalista  parabarresiano”, conforme a expressão de Gilberto Freyre - e é, de fato, escrito de encomenda. O autor não se contenta com narrar suas impressões de viagem, mas trata da história do país, de suas condições político-sociais[6].

 

A expressão recorrente “de encomenda” merece comentário e problematiza os outros escritos da época. De fato, todos os livros citados por Paul Adam na sua introdução (Paul Walle, o Barão d’Anthouard, Oliveira Lima, Pierre Denis, Turot, Rougier, Delgado de Carvalho, Edmond Théry), são de autores que, ao falarem do Brasil, se inserem na política do então ministro das Relações Exteriores, o Barão do Rio Branco que, por sua vez, havia exercido o mesmo trabalho de divulgaçao das condições favoráveis de imigração para o Brasil na Embaixada brasileira em Paris até o começo do século. E a idéia de branqueamento da populaçao brasileira via imigação da mão de obra européia também está presente. O próprio Paul Adam portanto se insere nesta série.

Os demais viajantes, ou seja, o padre Burnichon, o padre Gaffre e Clemenceau podem ser analisados dentro da discussão da questão da Separação da Igreja e do Estado, vistos como anticlericalistas e católicos, como positivistas e socialistas. No entanto, para citar um só exemplo, diante da revolta da Marinha em 1910, a Revolta da Chibata, Clemenceau e o padre Gaffre situam o problema da insubordinação no fato de constatarem a existência entre os marinheiros de muitos negros e mulatos. O problema do branqueamento da população está portanto presente. Clemenceau se pergunta inclusive como os brasileiros irão resolver este problema e o padre Gaffre é tranqüilizado por um interlocutor que acredita na continuidade da mestiçagem e no rápido branqueamento dos brasileiros. O tema está presente, pois é objeto de discussão no momento, mas não nos parece que estes sejam livros que possam ser simplesmente acrescentados à listagem anterior.

Quanto ao fato de Paul Adam em Les visages du Brésil falar “da nossa história, de nossas condiçoes politico-sociais”, como afirmam Brito Broca e Rivas, outros já o haviam feito, como é o caso do padre Burnichon, citado por Paul Adam quando vai retraçar a história dos jesuítas em São Paulo[7]. Talvez no caso de Paul Adam, defensor da idéia da supremacia da latinidade bem antes de visitar o Brasil, a questão esteja mais explicitada, mais agudizada. E a idéia de ter sido o livro escrito “de encomenda” nos parece portanto bastante provável. Talvez o fato de haver a dedicatória a Graça Aranha (1868-1931), explique ainda melhor tal afirmação.

É que sua obra Canaã, de 1902, foi traduzida em francês em 1910 por Clément Gazet, com prefácio do Conde Prozor[8]. O curioso é que por formação, Graça Aranha é adepto das idéias germanistas de Tobias Barreto. Sua experiência de juiz o leva ao cenário da ficção no Espírito Santo e o livro fala de imigrantes alemães. Graça Aranha, de 1900 a 1920, desempenha tarefas diplomáticas no Itamarati, sendo representante brasileiro na Noruega nesta ocasião. A tradução é comentada em Le Figaro de 31 de outubro de 1910, na primeira página, por Guglielmo Ferrero, que já havia visitado o Brasil. Considera Canaã um romance da América contemporânea sobre a questão da mistura de raças, tema ainda não abordado literariamente. Para ele, a história dos indivíduos, das personagens do romance, tem “uma significação social e filosófica profunda” pois trata da mudança introduzida na vida americana pela imigração européia. Brito Broca refere-se a Paul Adam como autor de um artigo elogioso no jornal Le Temps. Só encontramos entretanto, nesse periódico, na rubrica “La vie littéraire”, de 6 de novembro, assinada por Gaston Deschamps, uma resenha que se refere a Canaã bem como à tradução de Quelques contes de Machado de Assis[9]. O crítico francês faz menção ainda ao artigo de Ferrero sobre o livro e às impressões de Clemenceau sobre o Brasil, além de tecer elogios a Aranha que, pela sua erudição, desmente o esteriótipo do brasileiro arrivista e gastador das comédias de “boulevard”. Brito Broca, no entanto, questiona o destaque dado a Graça Aranha nesse artigo, em detrimento de Machado de Assis cuja tradução de uma primeira seleção de contos, não suscita “a mesma onda de encômios”, sendo apenas mencionada no último parágrafo. Diz ele:

 

Não é de estranhar que o livro provocasse tantos louvores. Graça Aranha nessa época desempenhava com brilho suas funções diplomáticas na França, e soubera aproximar-se de muitas figuras de renome, entre as quais Maurice Barrès. Em tais condições, bem sabemos como os franceses têm o elogio fácil. Fora recebido na Sorbonne com as honras de grande amigo da França e saudado por Edmond Rostand; considerado por Bergson o “représentant par excellence de la pensée brésilienne, dont j’apprécie pour ma part hautement le talent et les travaux”[10].

 

Se não encontramos o artigo de Paul Adam mencionado por Brito Broca, a relação entre os dois existiu, e reflete o esforço dos serviços diplomáticos brasileiros em mostrar um Brasil diferente do imaginado pelo teatro, um Brasil e uns brasileiros definidos no texto de Gaston Deschamps num suposto diálogo entre ele e autor de Canãa:

 

Nós, Latinos do Brasil, diz Graça Aranha, fomos moldados por uma cultura quase que exclusivamente francesa. É por isso que os franceses de elite que vêm nos visitar, a fim de fazer conferências, não se sentem estrangeiros em nosso país e gostam daqui.

 

São citados a seguir os casos de Clemenceau, Georges Dumas e Guglielmo Ferrero. Se os artigos do primeiro, publicados em jornal e depois reunidos em livro servem para dar do Brasil uma visão mais concreta, por que Paul Adam, também tendo vindo, não iria escrever sobre o que viveu, já que esteve não só no Rio e em São Paulo, mas visitou também outras regiões? Vale lembrar que os jornais Le Figaro e Le Temps em 1910 incluem em suas rubricas de notícias do estrangeiro referências à visita de Clemenceau e trazem detalhadamente informes econômicos, já que havia capitais franceses investidos no país. Haveria na época, portanto, uma série de interesses em jogo que justificariam o leitura do público francês de uma obra sobre o Brasil.

 

 

Les visages du Brésil

 

Paul Adam divide seu livro em capítulos que correspondem a artigos agora reunidos. O elemento que lhe dá unidade é, além do país visitado, o tema da latinidade cuja herança é partilhada por brasileiros e franceses. São criadas duas personagens brasileiras que intervêm como representantes de duas tendências diferentes, dois pontos de vista que se apresentam ao narrador: há portanto um trabalho de ficção na forma escolhida para apresentar o Brasil ao leitor francês. É o que é dito no Prefácio: “Para este volume, procurei reunir as impressões de conjunto que persistiram depois de 18 meses de trabalho no meio de minhas notas e meus documentos de viajante”. O trabalho de composição fica então registrado: “A vida essencial do Brasil, esta vida tão rica de cores diversas e de figuras significativas, tento mostrá-la ao desenhar a curva de uma atividade humana evocada como num afresco sobre uma grande parede clara”. Propõe-se portanto a compor um livro diferente dos já existentes:

 

Minha tarefa pareceu-me mais modesta. Cabia-me somente mostrar aqui, diante dos olhos do leitor, as fisionomias, as caras dessas forças latinas que instalaram, em 400 anos, no Novo Mundo, o espírito do Mediterrâneo, com toda a sua estranheza, todo o seu divino poder de criação.[11]

 

O título fica assim justificado e encontramos a latinidade e sua força, tese defendida por Adam, inicialmente, como vimos, em relação à França para opor-se às idéias de decadência, e agora em relação ao Brasil que, segundo ele, tem “um futuro magnífico assegurado a estes 25 milhões de homens, a sua elite ativa, solidamente instruída, e inteligente ao extremo”.

No primeiro capítulo o leitor é levado, desde a primeira linha, a Lisboa: “Em meio aos odores suaves de Lisboa, diante da beleza do Tejo que se dirige às brisas fortes do Atlântico, toda a esperança do Brasil foi concebida”. O rio é o inspirador dos sonhos dos pescadores e a seguir os dos marinheiros. São seduzidos pelo espaço e influenciados pelo “misticismo religioso”: “Todos não eram senão uma única fé sob mil caras (...) Em direção à terra prometida do Mistério, por isso mais bela, nada deteve seu impulso.”[12] Depois de descrever fisicamente os portugueses, depois de ter falado da língua que “permanece ainda a mais fiel ao dialeto dos legionários romanos”, e de ter citado Camões, Adam apresenta a cena da partida de Cabral e, por imagens, misturando passado e presente, fala da colonização e da mestiçagem para chegar a 4 tipos brasileiros, todos eles mestiços. O cenário da narração é o Mosteiro dos Jerônimos. Descrito em detalhes, serve de ambientação para as personagens brasileiras apresentadas pelo narrador: “esta igreja atrai os brasileiros dos navios que fazem escala em Lisboa durante a viagem atlântica”[13]. Sempre a viagem, viagem invertida, neste caso. E dentre os brasileiros provenientes das várias regiões do país, surpreendentemente o narrador escolhe dois nordestinos para situá-los nos Jerônimos. Eis o primeiro:

 

Podemos ver um católico de Pernambuco em tudo ainda semelhante a estas gentes piedosas de 1500. A influência das uniões brasileiras simplesmente elevou-lhe o pescoço, destacou-lhe a cabeça, alongou-lhe as pernas; mas o soldado de Cristo não mudou muito. Tem o bigode guerreiro de pontas curvas dos antigos cavaleiros das estampas do século XVI (...) Uma gola engomada, um colete negro e calções assentariam melhor neste homem do que seu terno inglês.[14]

 

É inteligente e culto: “Apóstolo fervoroso, o católico mostra imediatamente sua fé citando os escritores, de Joseph de Maistre a Charles Maurras, louvando, com uma profusão de detalhes exatos, a obra dos monges, a dos irmãos hieronimitas, fundadores deste incomparável claustro...”

Quanto ao segundo, trata-se de “um homem delicado e fino, bronzeado pelo sangue africano misturado ao sangue celtibero por núpcias ancestrais nas fazendas da Bahia.” Também ele é muito culto, mas suas idéias anticlericais o opõem ao pernambucano: “De Augusto Comte a Tolstoi, este advogado notável estudou tudo o que, em alemão, em italiano, em inglês, em francês pode fortalecer com argumentos as expectativaas de transformação social”.[15] Ambos escolheram países europeus para enviar os filhos: os do católico estudam em Luvaina, na universidade católica dos belgas e dos do baiano estão na Suíça, em Genebra, onde “seguem um ensino científico, positivo, esportivo, descentralizador e federal...” E o narrador conclui: “São duas energias, duas almas características do Brasil: a do passado fundador, a do presente transformador (...) São ambos surpreendentemente cultos. Bem mais do que seus pares franceses”[16].

Paul Adam constata que, como em toda parte, há conservadores, “a facção militarista”, e alguns deles “como o general Dantas Barreto, governador de Pernambuco, são louvados pelos próprios opositores, por sua escrupulosa eqüidade, por seu talento administrativo”. Mas há outros, como o advogado baiano, que pertencem ao grupo dos “civilistas” que têm “como chefe o maravilhoso orador e letrado, Rui Barbosa”. Como conclusão, Adam generaliza:

 

Deste modo duas crenças disputam a nação brasileira. O idealismo da tradição conquistadora, católica, organizadora, militar e nacionalista. O idealismo da inovação positivista, científica, individualista e, no futuro, mais anarquista do que socialista. Aqui como em qualquer outro lugar.[17]

 

Mas as duas tendências voltam a se reunir à beira do Tejo, no Mosteiro dos Jerônimos no final do capítulo. O narrador neste caso toma distância das duas tendências que aponta e vê um ponto em comum: a herança latina, e mais precisamente a herança cultural francesa. E estas duas personagens vão reaparecer em outros capítulos como uma estratégia do autor para discutir idéias opostas.

Não encontramos resenhas do livro na imprensa francesa, mas nos parece normal que, com o inicío da Grande Guerra e com a restrição de papel imposta aos jornais, tais comentários façam parte do supérfluo. Por outro lado, Brito Broca aponta uma recepção bem moderada ao livro no Brasil:

 

E não pode deixar de provocar-nos um sorriso irônico ao descrever a Avenida Central com as calçadas desertas, exceto nas proximidades dos cinematógrafos; os parques e os jardins abandonados pelo povo (que até hoje não tem o hábito de freqüentá-los, como na Europa); e aludindo à carestia da vida: tudo era, então, terrivelmente caro no Rio de Janeiro.

 

E temos então o maior obstáculo à sua aceitação: “(...) Paul Adam suscitou ressentimentos por não ter esquecido os mulatos e as mulatas que andam pelas ruas do Rio”, seguindo-se uma citação em francês: “Ses yeux africains, sa figure portugaise, son allure indienne, reparurent en mille dames entravées, empanachées, couvertes de hermines royales”. E o crítico conclui: “Esta e outras referências semelhantes, os leitores brasileiros não lhe perdoariam”[18].

Vejamos agora como o francês apresenta as mulheres brasileiras. No capítulo V, depois de discutir o papel desempenhado pelos jesuítas na época da colonização, sempre por meio das opiniões do católico conservador e do advogado positivista, o narrador segue uma jovem. Não há diálogo, mas os olhos dele e os das outras personagens a acompanham em seu percurso. Ela sobe e desce o Morro do Castelo, o que permite a descrição do cenário. Lá está ela:

 

Sob a trouxa de lençóis, uma adolescente, de rosto sério e morena, não reclama, não pisca apesar do calor dos raios do sol. Sobe o morro pedregoso. Contra o torso de menino mameluco, a brisa cola uma blusinha de índia, e, contra as pernas longas, uma saia curta rosa. As pernas bronzeadas, macias e finas se curvam para sustentar, com as ancas ossudas, a peso da carga.

 

O fato de usar o presente do indicativo cria para o leitor a impressão de que também ele participa da cena. Temos indicações referentes à luz do sol, ao vento, as cores, a fragilidade da jovem e o peso do fardo que carrega. O católico de Pernambuco e o advogado da Bahia tentam estabelecer um diálogo:

 

... incentivam, símbolo do esforço nacional, a valentia da aprendiz de lavadeira. Eles lastimam sua situação. Eles a elogiam. A menina responde por apenas uma sílaba. Ela sobe. Os dedos gretados dos pés se fixam nas pedras. Seu rosto de canéfora só se contrai por um segundo.[19] (grifo nosso)

 

Se o diálogo não ocorre, temos no entanto, em discurso direto, a opinião das personagens: “‘É o estoicismo latino, uma alma corneliana numa virgem do Brasil’, murmura o advogado insistente. ‘Esta altivez no dever, é inteiramente a virtude católica’, exclama o professor de Pernambuco”[20]. Passando ao lado de personagens anônimas, a menina provoca “simpatia compassiva”. Mas ela continua seu caminho. Cabe ao narrador nos dizer por que ela é capaz de agir assim:

 

Desses grandes mercadores portugueses herdeiros dos conquistadores, dessas lavadeiras ainda tupinambás pela cabeleira como as mães das primeiras famílias que aqui se instalaram, desses bonitos crioulos, seus filhos ambiciosos, sensíveis e altivos, desses robustos africanos, fundadores da riqueza agrícola, desses mulatos prestativos e faladores, criadores da República, parece que a mocinha tomou emprestado o essencial de suas forças para desempenhar a tarefa.[21]

 

Fisicamente a adolescente, para o autor “símbolo do esforço nacional”, reúne portanto, traços variados:

 

Nessa face um pouco cheia da virgem ressuscitam o vigor e a solidariedade portuguesas dominando a floresta tropical. Não é com esses mesmos cabelos lisos que suas companheiras índias acariciavam o repouso da energia deles? A menina tem, em seus olhos africanos, a força dos negros (...) Em suas pernas nervosas freme a impaciência do mulato. Na graça de seu andar se revela a sensualidade crioula...[22] (grifo nosso) 

 

Se a menina reúne nela elementos físicos que pertencem respectivamente aos portugueses, aos índios, aos negros, tais elementos servem para salientar o “vigor”, a “energia”, a “força”. E quanto aos mulatos e crioulos, aí entram a “impaciência” e a “sensualidade”. O chamado “símbolo do esforço nacional” reúne portanto atributos das vários componentes de uma representação da força do brasileiro, sendo portanto uma espécie de Marianne dos trópicos.

E a cena continua: ao chegar ao alto do morro, a menina para, ofuscada pela paisagem que lhe é familiar, mas que sempre vale a pena ser contemplada. Não emite opinião e é o baiano que tece comentários sobre o porto onde chegam “imigrantes latinos” e de onde partem produtos brasileiros de todas as regiões. A menina desce o morro e vai para a Avenida Central: “Chegando ao amplo passeio, a menina e seu fardo foram absorvidos pela multidão”.

Vamos reencontrá-la no capítulo seguinte, quando chega no centro da cidade. É aí que se situa a citação de Brito Broca: “Seus olhos africanos, seu rosto português, suas maneiras índias reapareceram em mil senhoras contidas, enfeitadas, cobertas de arminho real”[23]. São senhoras que pertence à elite brasileira. Os homens têm também um ponto em comum com a menina: são “tão sérios quanto à jovem aprendiz, e muito sobriamente vestidos de ternos novos, chapéus cinza, com um ar de severos fidalgos que pensam nos castigos do Inferno”[24]. Tal descrição dialoga com o esteriótipo francês do brasileiro: “O alegre brasileiro de nossos ‘vaudevilles’ é um tipo excepcional, legendário ou ultrapassado”, diz ele. Este é o brasileiro que encontra: “... a austeridade do católico celtibero, unida à admiração pela fleuma inglesa e à sobrevivência da seriedade indígena fazem do brasileiro moderno um senhor triste, um pouco altivo”[25].

Após esta introdução que se passa num sábado, o resto da capítulo se organiza em torno de um passeio de automóvel das senhoras da elite carioca numa quarta-feira. O narrador segue, como uma câmera, o trajeto delas: “... moças e jovens senhoras com toaletes luxuosas conservam, sob a elipse de seus chapéus e a ostentação de seus penachos, um ar de madonas entristecidas pelas fraquezas humanas”. Nada pode comovê-las:

 

Inutilmente as pérolas raríssimas de seus brincos valorizam a beleza fosca de sua tez, o brilho dos grandes olhos crioulos. Inutilmente as invenções da estética parisiense se adaptam à esbeltez das moças como às expansões das jovens mães. Esses ornamentos não lhes inspiram os prazeres da vaidade, mas o sentido da pompa. Instalam-se em seus automóveis como as patrícias de Roma em seus carros.[26] (grifo nosso)

 

Estas senhoras, em vez de parecerem austeras senhoras romanas, prefeririam talvez ser comparadas à mulheres francesas que lhes servem de modelo... E ainda uma vez o narrador as apresenta belas, mas trata-se da “beleza fosca da sua tez” e não totalmente brancas, se atentarmos para “os grandes olhos crioulos”. Se considerarmos que ele vê na latinidade a força capaz de se opor à decadência da socidade francesa, então essas mulheres brasileiras são as representantes perfeitas do que quer demonstrar. E o malentendido prossegue, porque parece-nos haver aí uma comparação implícita entre as mulheres brasileiras e as francesas, comparação favorável às primeiras, quando a austeridade das brasileiras se opõe à frivolidade e ao lado coquete das outras, comparação não entendida pelos leitores brasileiros. E além do mais elas são nobres, diz ele:

 

A nobreza tensiona seus rostos. A mesma nobreza tensionava os traços mais rudes da lavadeirinha, impassível  sob a trouxa de roupa, a fim de não fraquejar e apresentar como exemplo a execução perfeita de sua tarefa.[27] (grifo nosso)

 

Mas se anteriormente a comparação com as romanas não parece ser bem aceita, agora, ao compará-las à mocinha, há ainda maior possibilidade de malentendido, se a tal lavadeirinha não for vista como o “símbolo do esforço nacional”.

Mais adiante o narrador vai mostrar que essas brasileiras permanecem impassíveis diante da beleza da paisagem bem como diante do progresso da cidade. Uma ligeira reação é percebida quando passam pelo outeiro da Glória e avistam a igrejinha, o que reforça a idéia de religiosidade das cariocas. Mas, de repente, as expressões mudam. Todos parecem alegres. E o motivo apontado é o encontro com a família, com os parentes. O narrador constata então, a partir de testemunhos, que as recepções ocorrem em família, e não há vida mundana no Rio. Tais constatações parecem reforçar o implícito já apontado. Ao contrário dos franceses, a elite carioca é austera, sóbria, católica, família, o que parece receber a aprovação do narrador que termina o capítulo de novo no Mosteiro dos Jerônimos:

 

...esta sociedade de senhoras de luto e de senhores eloqüentes invoca, com piedade latina, suas freqüentes viagens à Europa, à Lisboa onde ela deixou o Claustro dos Jerônimos, sua arquitetura complexa e bela como a realização do sonho imaginado por Cabral e seus companheiros, durante a missa antes da partida.[28]

 

Podemos considerar então o livro de Paul Adam como parte da série considerada como de propaganda sobre o país, não só por parte dos brasileiros, como diz Brito Broca. Também a França tinha interesse nesse mercado em pleno desenvolvimento que, pelo testemunho dos jornais da época, é visto com bons olhos. Paul Adam cita no livro o montante dos investimentos franceses na época e em carta de 1914 onde, para justificar seu pedido ao diretor de um jornal para que publique uma resenha do Les visages du Brésil, solicita que fale a seu público “da importância que tem o Brasil ainda pouco conhecido”. Aponta a seguir, as razões de seu pedido:

 

Os 25 milhões de habitantes são, com os Estados Unidos, o povo predominante da América. Comprometemos quatro de nossos bilhões em seus investimentos industriais e em obras públicas. Vamos dar-lhe uma grande parte dos 500 milhões que toma como empréstimo contra garantias seguras. Em meu livro tento explicar tudo isso de forma acessível graças ao pitoresco dos brasileiros e de seu faustuoso cenário tropical.[29]

 

Mas estamos em 1914 e a Grande Guerra vai modificar muitos projetos. E quanto a Paul Adam, ele vai se concentrar na defesa da energia francesa e latina contra o inimigo germânico.



[1] Paul Adam. Les visages du Brésil. Paris, Pierre Lafitte, 1914. Para facilitar a leitura, as citações foram por mim traduzidas.

[2] Camille Mauclair. Paul Adam. Paris, Flammarion, 1921, p. 53 e 244.

[3] Paul Adam. Op. cit., p.147.

[4] Paul Adam. Paris, Librairie Paul Ollendorff, 1906.

[5] In: A vida literaria no Brasil - 1900. 2a. ed. Rio, José Olympio, 1960, p. 180.

[6] In: Encontro de literaturas. Sao Paulo: Hucitec, 1995, p. 185.

[7] Paul Adam. Op. cit., p. 104.

[8]Chanaan. Paris, Librairie Plon, 1910.

[9] Quelques contes. Trad. Adrien Delpech. Paris, Garnier, 1910.

[10] Brito Broca. Op. cit., p. 258.

[11] Paul Adam. Op. cit., p. III-IV.

[12] Idem, ibidem, p. 2.

[13] Idem, ibidem, p. 6.

[14] Idem, ibidem, p. 6-7.

[15] Idem, ibidem, p. 8.

[16] Idem, ibidem, p. 9.

[17] Idem. Ibidem, p. 12.

[18] Brito Broca. Op. cit., p. 181-182.

[19] Paul Adam. Op. cit., p. 72.

[20] Idem, ibidem, p. 72-73.

[21] Idem, ibidem, p. 73-74.

[22] Idem, ibidem, p. 74.

[23] Idem, ibidem, p. 77.

[24] Idem, ibidem, p. 77-78.

[25] Idem, ibidem, p. 78.

[26] Idem, ibidem, p. 79.

[27] Idem, ibidem, p. 79.

[28] Idem, ibidem, p. 98.

[29] In L’époque symboliste et le monde proustien à travers la Correspondance de Paul Adam. Org. J.-Ann Duncan. Paris, Nizet, 1982, p. 121.